“Nossa Senhora dos Sertões das Lagens” que nasceu em 22 de Novembro de 1766, quando Correia Pinto aqui chegou, fora gestada muito antes em Portugal com o objetivo claro de povoar a região e, se necessário, fazer frente aos vizinhos Castelhanos. Por luiz Antônio Ramos

O tratado de Tordesilhas entre Portugal e Espanha tornou o Brasil uma longa faixa de terra estreita na costa do oceano Atlântico. O Brasil precisava expandir-se e, por incentivo da Coroa Portuguesa, as Entradas, que eram incursões financiadas pela própria Coroa e, as Bandeiras que eram incursões financiadas por civis, passaram a desbravar estes sertões de meu Deus com outros dois objetivos claros: encontrar ouro e pedras preciosas e prear índios para o trabalho escravo.

A Espanha preocupada com estes avanços rumo ao sul e noroeste brasileiros buscaram os padres da Companhia de Jesus, já instalados em Assunción no Paraguai, e acordaram a instalação de Missões não somente no Paraguai mas também onde hoje é Mato Grosso, Paraná, Argentina e Rio Grande do Sul.

Assim, ao longo dos rios Paraná, Paraguai, Paranapanema e Uruguai, que nasce em Urubici, estima-se terem havido aproximadamente 48 reduções, também chamadas de Povos, Doutrinas ou Missões. Embora nem todas se desenvolvessem, algumas chegaram a ter mais de 10.000 habitantes.

Mário Simon, estudioso do assunto divide a incursão jesuítica no Rio Grande do Sul em dois ciclos. O primeiro vai de 1626 a 1637/38, onze ou doze anos apenas, e inicia-se com a fundação da redução de São Nicolau pelo padre Roque Gonzales de Santa cruz. Outras dezessete espalharam-se pelos campos gaúchos.

Este primeiro ciclo encerrou-se pelas constantes investidas dos Bandeirantes. Entre eles, Raposo Tavares, Fernão Dias Paes Leme e Jerônimo Coelho, que vinham de São Paulo, aprisionavam e levavam os índios como escravos. Todas as Missões foram abandonadas havendo um vácuo de aproximadamente 50 anos entre este momento e o início do segundo ciclo com a fundação da Redução de São Francisco de Borja em 1682.

Até então, e nestes quase 50 anos entre um ciclo e outro, as geadas aqui na serra catarinense eram solitárias e se estendiam enormemente por sobre estas coxilhas do planalto para derreterem-se aos poucos, por pura preguiça.

E sem a menor pressa aguardavam a manhã seguinte, ou a outra, ou a outra…  Ou até que Deus se quedasse e lhes oferecessem novamente as condições que queriam para cobrir o verde novamente.

Havia apenas um silêncio de ausência antecipada… Do tropeiro e do gado chimarrão ou missioneiro; do tio Miraldo, lageano véio algazarrento dos bons; do carismático Morô com sua bombachinha puída e uma rifa na mão; do ilustre Nereu Ramos; e dos versos doces e autênticos do poeta Ramiro Amorim.

Não por muito tempo…  Do outro lado do Pelotão multiplicava-se o gado abandonado a própria sorte pelos missioneiros do primeiro ciclo formando-se as Baquerias ou Vacarias… Do Mar, da Serra e a vizinha dos Pinhais que abasteceriam, juntamente com muares, as Minas Gerais, o centro consumidor da época devido a descoberta do ouro, e por aqui passariam por anos, nos forjando a estampa de legítimos tropeiros.

O morro do Juca, no inverno, ciumento como sempre, segurava o sol até não poder mais para soltá-lo somente quando percebesse o Carahá encarangado bravo e reclamão.
Como se pode perceber, o Sul já apresentava um movimento que despertaria cada vez mais o interesse das Coroas Portuguesa e Espanhola.

Em 1728, por ordem do governador de S. Paulo Antônio da Silva Caldeira Pimentel o “Sargento-Mor das vizinhanças do Rio Grande e seus Sertões” Francisco de Souza Faria começaria os trabalhos de abertura do “Caminho dos Conventos”.

Em 1731 Cristóvão Pereira de Abreu, Tropeiro conhecedor da região, também por ordem do Governador de S. Paulo, retificou o percurso. Após subir a serra, desviou para os lados de onde mais tarde seria conhecido como Campo das Lagens tornando o caminho muito mais curto. O caminho completo retificado ficou conhecido por “Estrada Real” ou “Caminho do Sertão” ou ainda “Caminho das Tropas”.

Transcrição do início do capítulo 3 A FUNDAÇÃO página 40 de O Continente das Lagens do historiador lageano Licurgo Costa: “Quando em 1765, Dom Luiz Antônio de Souza Botelho e Mourão, Morgado de Mateus, chegou a Santos para assumir a Capitania de São Paulo, recém restaurada, além de ordens expressas para estimular o seu povoamento, trouxe de Lisboa, aprovada pelo Rei Dom José I e pelo seu poderoso Primeiro Ministro, Conde de Oeiras, depois Marques de Pombal, a incumbência especial de fundar uma “Póvoa” ou duas, no extremo sul de seu território, limite presumível com os Castelhanos, a fim de, no caso de uma tentativa de invasão, poder oferecer a resistência inicial aos “confinantes” “.

Como se percebe, a nossa “Nossa senhora dos sertões das Lagens” que nasceu em 22 de Novembro de 1766, quando Correia Pinto aqui chegou, fora gestada muito antes em Portugal com o objetivo claro de povoar a região e, se necessário, fazer frente aos vizinhos Castelhanos.

Parabéns às Lagens – Pelos seus 254 anos!
Texto: Luiz Antônio Ramos

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